O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) oficializa neste sábado (25/7) sua candidatura à Presidência da República sem aliança partidária consolidada nem vice definido. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro chega à convenção cercado por uma sequência de crises que, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, colocam sua campanha em situação de fragilidade política logo no início oficial da disputa.
Entre os obstáculos apontados estão a dificuldade de avançar junto ao eleitorado feminino — maioria dos votos —, as trocas públicas de farpas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e a associação de seu nome ao escândalo envolvendo o Banco Master. O lançamento da candidatura deve contar com a presença do presidente argentino Javier Milei e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que busca a reeleição.
Aceno a Michelle e disputa por eleitorados
Na quinta-feira (23/7), Flávio publicou um vídeo pedindo novamente desculpas a Michelle e convidando a mulher de seu pai a "caminharem juntos". Poucas horas depois, a ex-primeira-dama respondeu também em vídeo, aceitando as desculpas do enteado. O gesto havia sido cobrado pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que afirmara dias antes que Michelle aguardava um aceno público para declarar apoio.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o movimento tem peso simbólico ao reforçar a imagem de um "Flávio moderado, que recua", além de abrir caminho para diálogo com os eleitorados feminino e evangélico, grupos com os quais Michelle mantém boa interlocução. O aceno ocorreu dois dias depois de a senadora Tereza Cristina (PP-MS) recusar o convite para ser vice.
Alianças em suspenso
O cenário partidário reflete as dificuldades do senador. A federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, decidiu manter neutralidade e liberou os diretórios estaduais para definir posicionamentos. O Republicanos, do governador Tarcísio, também pode seguir caminho semelhante. Oficialmente, os partidos têm até 15 de agosto para homologar alianças e candidaturas.
"A ausência de alianças é a constatação de um enfraquecimento partidário e político da candidatura dele às vésperas da sua formalização", avalia Cortez, que projeta uma chapa "puro-sangue" do PL. Para Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, os escândalos fizeram os partidos recuarem e deixaram o PL "isolado" no âmbito nacional, o que teria levado Flávio a radicalizar o discurso.
O caso Banco Master
A maré de dificuldades seguiu com a notícia de que o escritório de advocacia do senador emitiu três notas fiscais somando R$ 1,5 milhão em favor de empresas supostamente usadas por Daniel Vorcaro para movimentar recursos do Banco Master, duas delas canceladas no mesmo dia. Em nota, Flávio afirmou que não quis prestar os serviços e por isso cancelou as notas, sem ter recebido pagamento.
A associação ao caso já havia surgido quando veio à tona que o senador pediu dinheiro ao banqueiro para financiar a cinebiografia de seu pai, o filme Dark Horse — episódio que ele nega ter irregularidades. Na quinta (24/7), o ministro do STF André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigar se recursos foram usados para custear a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio também foi fotografado com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário", suspeito de integrar uma milícia pessoal ligada a Vorcaro; sobre a imagem, o senador deu versões distintas, primeiro negando conhecê-lo e depois alegando que a foto teria sido fabricada.
Questionamento às urnas e a estratégia da moderação
Apesar das crises, Flávio segue competitivo. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, num eventual segundo turno hoje ele teria 42% das intenções de voto ante 46% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Analistas apontam, porém, que a estratégia inicial de se apresentar como "o Bolsonaro mais moderado", como ele próprio afirmou em dezembro, tem perdido força.
No início da semana, em evento com diplomatas em Brasília, o senador levantou dúvidas — sem apresentar provas — sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, associando-as à empresa venezuelana Smartmatic. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em nota publicada originalmente em 2020 e replicada agora, esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas ou softwares usados em eleições no Brasil. O discurso remete ao roteiro adotado por Jair Bolsonaro, cuja convocação de diplomatas em 2022 resultou em condenação que o tornou inelegível até 2030.
Para Teixeira, o "Flávio moderado ruiu" e a radicalização se intensificou após a associação com o Banco Master, quando o senador teria perdido apoio na classe média. Ele lembra ainda que, em 2018, Jair Bolsonaro também adiou a escolha do vice, anunciando o general Hamilton Mourão apenas no início de agosto, após negativas de outros nomes — um paralelo que, segundo o professor, mostra que definições podem vir mais adiante, embora o cenário atual pareça mais adverso.