O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão se enfrentar no segundo turno da eleição presidencial, marcado para o dia 25 de outubro. No primeiro turno, realizado no domingo (4/10), Flávio terminou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — uma diferença de apenas 2,2 milhões de votos, segundo levantamento publicado pela BBC News Brasil.

Para ajudar o eleitor a comparar as candidaturas, a reportagem reuniu propostas e posicionamentos em oito áreas, extraídos dos programas registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de declarações públicas feitas em entrevistas, eventos, transmissões ao vivo e redes sociais. Os dois projetos apresentam diferenças marcantes, mas também alguns pontos de convergência.

Economia e papel do Estado

A economia é apontada como um dos maiores contrastes entre os candidatos. Lula defende uma atuação mais ativa do governo para estimular o crescimento e reduzir desigualdades, com fortalecimento da política industrial, maior progressividade tributária e manutenção do chamado novo arcabouço fiscal para equilibrar as contas públicas.

Já Flávio aposta na redução do tamanho do Estado, com um "grande tesouraço" que prevê corte de ministérios, diminuição da carga tributária, privatizações e revisão da reforma tributária aprovada em 2023. Para o cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as principais divergências entre os projetos estão justamente nos campos econômico e de segurança.

Segurança pública

No combate ao crime, Lula defende a asfixia financeira das facções, mais investimentos em inteligência, o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal e a ampliação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), sempre "nos marcos da Constituição". Flávio, por sua vez, aposta no endurecimento penal: propõe classificar organizações como PCC e Comando Vermelho como "narcoterroristas", reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, criar cinco presídios de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador e implantar reconhecimento facial com mais de 1 milhão de câmeras.

STF, 8 de Janeiro e Congresso

Um ponto central de divergência trata dos condenados por atos antidemocráticos após a eleição de 2022. Flávio promete anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), enquanto Lula defende manter as punições. Flávio também propõe mandatos para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), restrições a decisões individuais e defende o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. O programa de Lula não prevê mudanças institucionais na Corte, embora o presidente tenha dito, em entrevistas recentes, ser favorável a mandatos para ministros. O tema ganha relevância porque o próximo presidente poderá indicar ao menos três integrantes do STF.

Educação, saúde e trabalho

Na educação, Lula concentra propostas na expansão da rede pública, com mais creches, educação integral, o programa Pé-de-Meia e novos Institutos Federais. Flávio defende alfabetização pelo método fônico, escolas cívico-militares, gestão por resultados, vouchers educacionais e ensino "livre de doutrinação político-partidária". Na saúde, há mais convergências — ambos citam prontuário eletrônico único, telemedicina e inteligência artificial —, mas Flávio defende maior integração com o setor privado, enquanto Lula reforça o compromisso com o SUS. No campo trabalhista, Lula propõe valorização do salário mínimo, fim da escala 6x1 e redução da jornada para 40 horas sem corte salarial, ao passo que Flávio defende reduzir o custo da contratação formal e ampliar a flexibilidade das regras.

Leituras dos especialistas

Para Francisco Teixeira, professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), muitos eleitores se guiam menos pelos programas e mais pela simpatia por um ou outro candidato. Ele avalia que o projeto de Lula é "uma guerra de trincheira" para preservar programas sociais, enquanto o de Flávio se aproxima das reformas econômicas adotadas na Argentina por Javier Milei. Praça observa que Flávio tem menos conexões com setores militares e com as alas mais radicais do bolsonarismo que o pai, o que poderia tornar seu eventual governo mais moderado — embora isso dependa da participação de seus irmãos, em especial o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, cotado para o Ministério das Relações Exteriores.

A BBC News Brasil informa que nem todos os temas tiveram propostas detalhadas pelas duas campanhas e que o material será atualizado conforme novos posicionamentos forem divulgados. A íntegra do comparativo está disponível no especial da publicação.