Uma disputa sem favorito claro
A cerca de duas semanas do primeiro turno da eleição presidencial, as pesquisas de intenção de voto ainda não indicam um favorito definido. Segundo o agregador da BBC News Brasil, que reúne resultados de diferentes institutos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 39% e Flávio Bolsonaro (PL) com 35% nos cenários de primeiro turno. Ambos chegaram a recuar após o primeiro debate, do qual não participaram, mas voltaram a ganhar fôlego nas últimas semanas.
Nos cenários de segundo turno, o quadro é de empate técnico: nos dados coletados pelo agregador até terça-feira (15/9), tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro somam 44% da preferência dos eleitores. A situação contrasta com a mesma época em 2022, quando, de acordo com a Polling Data, parceira da BBC, Lula tinha 49% e o então presidente Jair Bolsonaro, 40% — uma diferença de nove pontos percentuais.
O pano de fundo da crise no Supremo
A reta final da campanha ocorre em meio a uma crise no Supremo Tribunal Federal, ligada aos desdobramentos do caso Master, que culminou em uma sessão plenária marcada por trocas de acusações entre ministros na terça-feira (15/9). O eventual impacto desse cenário nas urnas — e do escândalo em torno do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com suspeitas que atingem a cúpula dos três poderes — ainda não é claro.
Entre os especialistas ouvidos pela reportagem, há avaliações de que o ambiente pode ser negativo para os dois lados: para Flávio Bolsonaro, por conta do chamado caso Dark Horse; e para Lula, que poderia ser prejudicado por um clima de maior pessimismo entre os eleitores.
O eleitor independente
O perfil mais citado pelos especialistas é o dos brasileiros que não se identificam plenamente nem com a direita nem com a esquerda. Para Yuri Sanches, do AtlasIntel, a eleição pode ser decidida por uma fatia pequena do eleitorado — cerca de 10% a 15% — sem vínculo partidário definido. O tamanho e o nome desse grupo variam por instituto: a Quaest fala em "independentes" (cerca de 32%), enquanto a Nexus os chama de "não polarizados" (18% em pesquisa divulgada em 14 de setembro).
Esse contingente ajuda a explicar o crescimento momentâneo de Augusto Cury (Avante), que chegou a liderar entre independentes na Quaest de 2 de setembro, com 24%. O percentual recuou para 15% na sondagem de 14 de setembro, sobretudo pela recuperação de Lula entre esse público. Como aponta a cientista política Luciana Veiga, esses eleitores são difíceis de mapear porque não têm perfil sociodemográfico claro e costumam decidir o voto na última hora.
O peso do voto evangélico
Diferentemente dos independentes, os eleitores evangélicos têm alinhamento mais definido: em todas as pesquisas, a maioria declara voto em Flávio Bolsonaro, repetindo o padrão das campanhas de seu pai em 2018 e 2022. Na Atlas/Bloomberg (10/9), Flávio tinha 49,9% contra 30,6% de Lula nesse grupo; na Nexus/BTG, 52% a 27%; na Quaest, 41% a 24%; e no Datafolha, 50% a 22%.
A professora Nara Pavão, da UFPE e da FGV, observa que a distância entre os dois candidatos nesse segmento, embora ainda seja a maior, diminuiu ao longo do ano. Na Quaest, a vantagem de Flávio caiu de 37 pontos em maio para 13 pontos em 2 de setembro, voltando a 17 pontos em 14 de setembro. Parte desse eleitorado migrou para outros candidatos, especialmente Cury. Pavão destaca ter sido surpreendente o impacto das acusações do Dark Horse sobre os evangélicos, o que sugere que a adesão a Flávio não é totalmente consolidada.
Costumes no centro do debate
Segundo as especialistas, houve nos últimos anos uma reordenação das prioridades do eleitorado. Pavão lembra que a população brasileira tende à direita e que Lula se elegeu nos anos 2000 com apoio de eleitores conservadores, em um momento em que os valores de costumes não eram centrais no debate. Em 2018, avalia, Bolsonaro passou a explorar essa agenda em um contexto de expansão das igrejas evangélicas.
Para Luciana Veiga, o chamado voto de classe perdeu centralidade em favor de uma pauta de costumes, o que reconfigura disputas em segmentos historicamente próximos ao PT, como pessoas de menor renda, mulheres e moradores de periferias. A campanha de Lula, observa Pavão, tem tentado acenar a esse público, buscando desmontar a associação do partido a uma imagem contrária aos "valores da família".