O Supremo Tribunal Federal reúne o plenário nesta terça-feira (15.set.2026) para decidir se abre ou não uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, em razão de sua relação com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. A sessão marca o ponto mais visível de uma crise interna que, segundo levantamento do Poder360, não tem precedentes na história da Corte.
No sábado (12.set), o presidente do tribunal, Edson Fachin, negou o pedido de Moraes para que a conduta do ministro André Mendonça também fosse analisada na mesma sessão desta terça. O caso envolvendo Mendonça foi remarcado para 23 de setembro. No mesmo dia, Fachin assumiu a investigação sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro e determinou a suspensão dos inquéritos relacionados aos casos Master e INSS na Presidência, sem, contudo, retirar a relatoria de Mendonça.
Como a crise começou
De acordo com a apuração do Poder360, a Polícia Federal entregou a Mendonça, em 27 de agosto, um relatório de inteligência de 218 páginas produzido a partir da análise do celular de Vorcaro, reunindo mensagens, registros de chamadas e arquivos. Paralelamente, policiais federais elaboraram relatórios sobre a atuação de Mendonça nas operações Sem Desconto e Compliance Zero. A própria PF afirmou que esses documentos tinham caráter de inteligência, sem valor probatório ou acusatório.
Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo da ação que reunia o relatório da PF e os documentos sobre Vorcaro, abrindo caminho para análise pública pelo plenário. Entre os elementos citados estavam conversas de Vorcaro com autoridades e um contato salvo no celular como "Alexandre de Moraes BRASILIA". No mesmo dia, a Procuradoria-Geral da República pediu a nulidade do procedimento.
O embate entre os ministros
A disputa escalou em 3 de setembro, quando Moraes pediu que Mendonça fosse investigado no inquérito das fake news por abuso de autoridade. Moraes afirmou haver "fortes indícios" de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, sustentando que Mendonça teria direcionado investigações contra ministros da Corte, entre eles Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, além do próprio Moraes.
Diante do conflito, Fachin determinou que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestassem informações em cinco dias. Em 4 de setembro, retirou o pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news e o incluiu no procedimento aberto para analisar o relatório da PF. Em evento no Palácio do Planalto, o presidente do STF classificou o encerramento do inquérito das fake news como uma de suas prioridades e prometeu resposta "firme, proporcional e rigorosa".
Afastamento e reintegração na PF
Em 8 de setembro, Mendonça determinou o afastamento temporário de Andrei Rodrigues do comando da corporação, alegando indícios do que chamou de "arapongagem institucional". Na 1ª Turma, Mendonça, Fux e Nunes Marques votaram para manter o afastamento, mas Gilmar Mendes pediu vista. No dia seguinte, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei ao cargo, aprofundando o embate.
Ainda em 9 de setembro, Fachin retirou Moraes do comando do inquérito das fake news, suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Dino sobre Andrei e pautou a sessão extraordinária desta terça. Nos dias seguintes, sucessivas decisões trataram da retirada de sigilo dos processos: Mendonça divulgou 15 procedimentos em 10 de setembro e outros 39 em 11 de setembro, envolvendo casos como "Dark Horse" e apurações ligadas a Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Cláudio Castro.
O impasse sobre os dados do celular
Parte da disputa recente girou em torno do acesso aos dados extraídos do aparelho de Vorcaro. Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes pediram acesso integral ao material antes da sessão. No domingo (13.set), a PF informou a Fachin que poderia fornecer imediatamente cópias idênticas, sem prejuízo à cadeia de custódia, mediante autorização. Zanin determinou a entrega ao seu gabinete e, na segunda-feira (14.set), a corporação entregou as cópias aos gabinetes de Zanin, Gilmar e Moraes.
Mendonça, por sua vez, avaliou que retirar o sigilo de todo o conteúdo poderia "tumultuar" o julgamento, afirmando que o material necessário à sessão já havia sido disponibilizado. Também na segunda-feira, após defesa da PGR pela divulgação, Fachin pediu a Mendonça o levantamento do sigilo de outra frente de investigação, sobre pagamentos feitos por Vorcaro e pelo Master, solicitação atendida pelo ministro. O julgamento desta terça deve definir os próximos passos de uma crise que envolve, ao mesmo tempo, integrantes do tribunal, a PF e o Ministério Público.