Especialistas em relações internacionais avaliam que a política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), em relação ao Brasil combina interesses geopolíticos, econômicos e eleitorais. Segundo análise publicada pelo Poder360, a escalada de tensões com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — marcada pelo tarifaço e pela aproximação de Trump com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — vai além da disputa comercial e mira a capacidade de influência de Washington sobre um aliado estratégico.

Uma velha lógica com nova roupagem

Os analistas apontam que Trump não inaugura uma nova política externa em relação à América Latina, mas intensifica uma estratégia presente também em governos anteriores, como os de Joe Biden, Barack Obama e George W. Bush: preservar a influência norte-americana na região e conter o avanço de potências rivais, especialmente a China. Com o país asiático consolidado como principal parceiro comercial do Brasil, Brasília passou a ocupar posição central nessa disputa entre as duas maiores economias do mundo.

Segundo os especialistas, o século 20 teve no canal do Panamá o símbolo da projeção de poder dos Estados Unidos, enquanto hoje disputas em torno de temas como o Pix passaram a ocupar esse espaço. A questão que orienta a análise é até onde vai o que alguns chamam de "Doutrina Trump".

Influência ou interferência?

Há divergência entre os analistas sobre como classificar a atuação norte-americana. Para o professor Gustavo Macedo, do Insper, toda ação de um país sobre outro envolve algum grau de interferência, e o caso brasileiro ganhou contornos próprios quando Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca poucos dias após a passagem de Lula pelo mesmo local. Na avaliação do professor, esse tipo de gesto reforça a imagem do senador diante de sua base e repercute no debate interno brasileiro, combinando "influência e interferência" em diferentes níveis.

Já Rafael Cortez, professor do IDP, prefere falar em defesa de interesses estratégicos. Para ele, Trump alterna instrumentos de pressão e negociação enquanto tenta ampliar sua influência sobre o cenário político brasileiro. Cortez lembra que o secretário de Estado, Marco Rubio, já classificou o Brasil como um país "não amigável" aos Estados Unidos na América Latina.

Dimensão eleitoral nos dois países

No plano doméstico norte-americano, os especialistas avaliam que a Casa Branca busca fortalecer a popularidade de Trump antes das midterms, as eleições legislativas de meio de mandato. Demonstrar firmeza diante de adversários externos é apontado como estratégia recorrente para mobilizar a base republicana, e o Brasil passou a integrar essa agenda ao lado de países como China e Cuba.

Segundo Macedo, a estratégia também passa pela defesa de empresas norte-americanas, entre elas big techs que apoiaram Trump. Nesse contexto, críticas ao Pix refletiriam uma tentativa de proteger empresas de cartões e meios de pagamento dos Estados Unidos diante da competitividade do modelo brasileiro. O professor acrescenta que a classificação de facções criminosas como organizações terroristas pode servir de justificativa para ampliar a pressão sobre o sistema financeiro brasileiro.

Efeitos sobre a pré-campanha de Flávio

Cortez avalia que a aproximação de Flávio Bolsonaro com Trump buscava reforçar um dos eixos de sua pré-campanha: a segurança pública. No entanto, a estratégia teria perdido força quando o anúncio do segundo tarifaço coincidiu com a visita do senador a Washington, associando a aproximação também ao desgaste do conflito comercial e dificultando a expansão de seu apelo entre eleitores independentes.

Macedo cita pesquisa da Quest segundo a qual 51% dos brasileiros culpam Flávio Bolsonaro pelo tarifaço, o que, em sua leitura, fortalece o discurso de defesa da soberania adotado por Lula. Para o professor, a estratégia do Planalto de manter a resposta no campo institucional, sem transformar o embate em disputa pessoal entre Lula e Trump, reduz o potencial de exploração política da crise.

Riscos apontados para cada cenário

Ao analisar as hipóteses eleitorais, Macedo afirma que um eventual governo de Flávio Bolsonaro teria como principal risco um alinhamento automático aos interesses de Washington, o que poderia significar perdas concretas para empresas e investidores brasileiros. Cortez recorda que a política externa do governo Jair Bolsonaro apostou na proximidade com Trump e movimentos conservadores, mas obteve ganhos limitados na prática.

Os especialistas ressaltam que a política externa de Trump é marcada pelo unilateralismo, o que não garantiria tratamento privilegiado a Brasília em caso de alinhamento. Já em um eventual governo Lula 4, setores dependentes do mercado norte-americano poderiam sofrer impactos, embora a tendência seria aprofundar a diversificação de parceiros comerciais, com foco em China, Brics e outros mercados.